sábado, 26 de março de 2011

A Categoria de base é uma mentira!

Alguns dias atrás lí um artigo no site da Universidade do Futebol (onde sou frequentador assíduo), cujo título me deixou surpreso e estarrecedor. "A Categoria de base é uma mentira"... Depois de ler todo o artigo, fiquei de pé e aplaudi os autores! Tentei contato com ambos no intuito de pedir autorização para divulgação do artigo aqui em nosso blog e não obtive exito. Como não estou omitindo os autores e coloco na íntegra todo o artigo, não vejo motivo de discódia em está compartilhando um assunto de tamanho interesse para nós professores envolvidos no trabalho de formação na categoria de base.


“A categoria de base é uma mentira”
São poucos os clubes no Brasil que possuem uma metodologia aplicada, coordenadores atuantes (e capacitados) e treinadores aptos para atuar nas diversas faixas etárias
Renato Buscariolli de Oliveira e William Sander Figueiredo
Caros leitores, tudo bem?
É um prazer escrever novamente sobre as categorias de base e suas nuances no Brasil. Apesar do título deste breve manuscrito ser intenso e forte, não foi criado por nós. Estamos aqui apenas reproduzindo o que ouvimos de um técnico de renome no cenário nacional quando questionado sobre o assunto.
Contextualizando o leitor, o que nos motivou para a escrita de um novo artigo acerca da temática foi a nossa participação em outro evento de capacitação e reciclagem no futebol, desta vez o “III Congresso Brasileiro de Ciências de Futebol”, realizado em São Paulo, no estádio do Canindé. Diga-se de passagem, um evento de alto nível, com palestrantes de elevado gabarito.
Entre os diversos assuntos abordados dentro da seara futebolística, os quesitos técnicos e táticos fizeram-se presentes, como não poderia deixar de ser. Ao término de uma das palestras sobre tática (mais especificamente sobre sistemas defensivos), nosso protagonista foi indagado com uma pergunta até certo ponto “despretensiosa”:
“Como o sistema defensivo deve ser trabalhado nas categorias de base”? Para aqueles (como nós!) que esperavam uma resposta contendo as considerações sobre a utilização de dois ou três zagueiros, sobre a formação ou não de linhas de quatro, a réplica foi arrebatadora:
“A categoria de base é uma mentira no Brasil”. A partir desta frase impactante, o palestrante ponderou seus argumentos no intuito de embasá-la. Em suma, ressaltou que na grande maioria dos clubes pelos quais passou, não existe uma metodologia, ou seja, uma filosofia de trabalho sistematizada. Assim, cada treinador que assume o comando (seja no sub-15, sub-17 ou sub-20), aplica a metodologia que melhor lhe parece, em busca primordialmente de títulos e não da formação (já que a conquista de títulos é o que vai sustentar seu emprego). Para isso, busca novos jogadores (em sua maioria atletas maturados e muito fortes) dispensando aqueles que já faziam parte do elenco.
Reforçou ainda que em muitos clubes a base seja utilizada como cabide de empregos, já que “profissionais” não qualificados assumem cargos técnicos por estes não serem considerados tão importantes, bastando ser amigo ou parente de quem está comandando. Mencionou também que a rotatividade dos profissionais de campo é altíssima, assemelhando-se ao futebol profissional, algo que considera contraproducente, já que inviabiliza a possibilidade de um real “processo” de formação.
O mais absurdo, segundo ele, é que na base, pior do que no profissional, mesmo realizando-se um bom trabalho, pode-se ser demitido, já que a repercussão na mídia é mais amena. Em sua opinião, o principal responsável por este cenário são os próprios clubes, que devido à respectiva desorganização, a não preocupação com a sistematização do trabalho e a cobrança por títulos ao invés da formação de atletas, permitem que indivíduos não gabaritados sejam responsáveis pela coordenação da base.
Nós, paradoxalmente, ficamos felizes com sua fala. Felizes não com a situação vigente e hegemônica no país, mas feliz com a constatação e divulgação deste cenário deprimente, por um formador de opinião, um treinador que sequer trabalha com as categorias de base, mas reconhece sua importância e em forma de desabafo expôs suas limitações em um congresso sobre ciência no futebol.
Atitudes como estas devem ser enaltecidas, afinal, pessoas com capital simbólico são os motores para qualquer processo de mudança. Nós, que ainda não chegamos “lá”, nos apegamos a este tipo de pensamento, que nos faz acreditar que o futebol pode mudar que o futebol tem que mudar.
Definitivamente compactuamos das mesmas idéias do treinador e de fato são poucos os clubes no Brasil que possuem uma metodologia aplicada, coordenadores atuantes (e capacitados) e treinadores aptos para atuar nas diversas faixas etárias. Infelizmente, muitos treinadores da base, quando ex-jogadores, repetem o que fizeram há dez, vinte, trinta anos, com a justificativa de que no passado era assim. Mais do que isso, ao invés de tentar justificar e embasar seus respectivos treinamentos preocupa-se em “contar causos” e estórias de suas épocas, para jovens atletas que carecem de novos aprendizados e muitas vezes sequer conhecem os personagens citados.
É evidente que apenas o profissionalismo e o conhecimento podem mudar esta realidade, já que é comum ouvirmos treinadores da base afirmando que determinado atleta “só sabe chutar com uma perna”; “não sabe fazer o movimento correto para o cabeceio” ou que é muito “lento”.
A pergunta que fica é: o que o treinador está fazendo para mudar isto? Nós ainda vamos além: será que o gesto técnico estereotipado é o mais importante para o processo de formação? Ou as competências essenciais agregadas à tomada de decisão e leitura de jogo são preponderantes? Talvez determinado atleta seja lento em um teste físico de velocidade na fotocélula, mas sua inteligência para o jogo possibilita que se torne veloz. Será que o treinador está atento a isso? O excerto abaixo indica que provavelmente não...
Há algum tempo, assistimos ao jogo entre Barcelona x Hércules, válido pelo Campeonato Espanhol, e havia cerca de cinco ou seis jogadores oriundos das categorias de base atuando pelo clube catalão. O Barça perdeu o jogo pelo placar de 2 a 0 e seus jovens atletas apresentaram uma série de dificuldades inerentes à transição para o profissional: medo, ansiedade, insegurança, dificuldade para lidar com um estádio lotado entre outros. Todavia, durante a partida, era nítido o padrão (modelo) de jogo estabelecido pela equipe, às trocas de posições, as regras de ação para estruturação de espaço, a mudança de plataforma quando requisitada entre outros. Ou seja, os jovens atletas, apesar de estarem lidando com uma situação de estresse agudo, apresentavam comportamentos adquiridos ao longo do processo de formação, indicando que a base cumpriu o seu papel.
Já no Brasil, quando uma equipe da base joga para trás da linha da bola, saindo rápido e verticalmente no contra-ataque quando recupera a posse, é taxada como uma equipe que só marca que só sabe se defender e joga como time pequeno. Mesmo estando bem compactada, organizada, tendo chances claras de gol e sendo líder do campeonato, um empate sem gols contra uma equipe de excelente qualidade, é motivo para duras críticas.
Daí fica a dúvida: a base é uma mentira? Abaixo, um trecho de uma entrevista do técnico Ney Franco (formado em Educação Física pela Universidade Federal de Viçosa) sobre sua contratação para coordenação do projeto de base na seleção sub-20, um indicativo de que as coisas na base estão mudando:
“A gente vai trabalhar com uma garotada numa idade complicada, que vive queimando etapas da vida. Trabalhei muitos anos na base, e o que aconteceu com o Neymar é muito comum, mas não dá visibilidade porque não é com o Neymar, é com desconhecidos. O nosso papel é aconselhar, orientar e mostrar a eles o que é representar o nosso País. A forma como lidar com isso é o desafio do treinador, do educador, que usa seus conhecimentos na área da educação, da comunicação e da persuasão. Muitos atletas talentosos não se transformaram em craques porque não tiveram um acompanhamento adequado. E muitos se tornaram justamente porque tiveram. Este é o nosso papel”.
Um grande abraço e até a próxima!

4 comentários:

  1. Concordo com tudo!

    Estou a pouco tempo trabalhando no futebol, mas já presenciei situações incomodas dentro da base pelos clubes que passei.

    É bem notório e perceptível que, em muitas agremiações, o resultado a ser alcançado fala sempre mais alto que a formação do atleta propriamente dita. Aliás, "formação" geralmente, é uma palavra não muito pronunciada, tampouco, executada dentro das categorias de base.

    Com relação a formação dos "profissionais", acrescento que, em alguns casos, mesmo aqueles que possuem formação acadêmica ou cursos nas mais diversas áreas do futebol, cometem estes mesmos erros citados acima, assim como, em outros casos, profissionais que não possuem formação acadêmica ou cursos, executam e bem a função de educadores e formadores, não só de atletas do futebol, mas acima de tudo, são formadores de cidadãos de caráter!

    Gostaria também, aproveitando a ocasião, para adicionar a esta questão polêmica, alguns agentes, tais como: "pais ou responsáveis" pelos atletas e também os "aventureiros", que em muitos casos, gostam de ser chamados de empresários.

    Ambos agentes, influenciam e muito na "formação" dos atletas de base dentro de uma agreamiação.

    Mas isso meu caro Prof. Serginho, são temas para uma nova mesa redonda aqui no seu blog!

    Grande abraço fera!

    Fique com Deus!

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  2. Caro amigo Sérgio, venho gentilmente solicitar sua ajuda.

    Tenho um filho de 10 anos (26/12/2001) que é goleiro e treina na escolinha fla de Itaborai. Ele possui uma boa qualidade técnica, por isso queria levá-lo ao projeto Karanba para fazer um teste mas não consigo achar o endereço da sede do Karanba daqui de São Gonçalo. Ficaria muito grato se o amigo me informasse.

    Muito obrigado,
    Att. leandro Reis

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    1. Leandro, meu amigo!
      Desculpas, só agora depois de muito tempo está te retornando.
      Várias coisas aconteceram desde então e não pude dá sequência e atenção a esse meu blog, onde, até senha perdi. Hoje vejo que seu filho está preste a completar 14 anos e me informe caso queira informações sobre ele. Abraço!

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